Kaique Theodoro – Visibilidade Trans

Eu sou Kaique Theodoro, me identifico como homem trans e comecei minha transição a 6 anos. Fui um dos primeiros boys trans a fazer vídeo no YouTube, junto com o Caito, daqui de SP.

Sou carioca da gema.

Toco desde meus 14 anos, que foi quando aprendi a tocar guitarra. Então já passei pelo punk rock, com banda, já fiz sons bem pesados e encontrei na música, na verdade, uma válvula de escape que me deu uma outra perspectiva de vida. A música é muito importante para mim.

Então depois de muitas frustrações eu decidi seguir carreira solo e aí comecei com voz e violão, na MPB, e lancei meu primeiro single, chamado ao sol de forma totalmente independente.

Tem mais de 22 mil visualizações. Nós não tentamos nada de marketing, não sabemos dessas coisas. Então pra mim foi um baita sucesso, mas só me permitiu tocar em locais específicos e para pessoas um pouco elitistas. Então eu pensei “quero expandir”, quero pegar todo o mercado, não quero ficar batendo nessa tecla da mpb, do blues, da música mais conceitual, por que eu quero que crianças me escutem, eu quero que o cara do barzinho me escute. E aí fui estudando. Estudando e quebrando a cabeça, até que veio Pabllo Vittar, que foi um grande boom no mercado pop nacional, e foi quando me deu um estalo e pensei “cara, é sobre isso.”

Então eu comecei a fazer uma coisa mais voltada para o pop. Desenvolvi uma coisa meio funk pop e lancei o lyric video de experimenta no YouTube. Alcançamos mais de 11 mil visualizações, da mesma forma: sem investir em marketing.

A música fala da objetificação do meu corpo. Uma das frases que eu mais escuto é “sempre quis experimentar um homem trans”, então eu me apropriei desse fetiche e usei na música.

Fui o primeiro homem trans que se tem dados a cantar e se apresentar aqui no Rio de Janeiro. Comecei no ano passado, em 2018, pra você ver como a coisa ainda é bem invisível… Comecei na Galeria Café e foi muito complicado por que assim que anunciaram meu nome, que eu sou homem trans, me olharam com uma cara de repúdio (gays, principalmente).

Logo em seguida cantei no encerramento da parada LGBT de São Paulo. Foi um mar de gente, realizei meu sonho. Nunca imaginei que eu iria cantar pra tanta gente na minha vida rápido assim.

Atualmente eu não sou mais independente, tô com a Universal Music, mas ainda não lancei nada. Então tô quieto na minha, mas esse mês já vai ter lancamento. Vai ser funk 150bpm, putaria acelerada. É um relançamento da música Dom.

Eu tbm sou ator e modelo.

Ator com DRT (documento de ator) e ainda assim encontrei mil e uma dificuldades pra conseguir trabalho nessa área. E também como modelo é muito difícil por que, apesar de agora abrirem portas para pessoas trans, eles preferem contratar cisgêneros para fazer os papéis trans nas publicidades, nas novelas, em séries, enfim.

Comecei no teatro aos 19 anos, quando fiz minha mastectomia, pois eu era muito tímido e precisava melhorar no palco. Acabei me apaixonando e decidi investir mais do meu tempo nisso. Fiz algumas peças, me apresentei em alguns locais, tenho uma experiência vasta.

Fiz um ano e meio de teatro e parei, por falta de condições de continuar. Um tempão depois, quase dois anos, num ato trans aqui no Rio, na Cinelândia, eu conheci a Dandara Vital, atriz travesti incrível, talentosíssima, e ativista. Então, por livre e espontânea pressão ela me botou de volta no teatro, no antigo grupo damas em cena, que era um grupo só de travestis aqui do Rio de Janeiro, na Lapa, e aí quando eu entrei a gente mudou o nome para transarte e participo até então. Fizemos diversos festivais anuais e todos com muito sucesso, um público muito grande.

– Os trabalhos no transarte falam exclusivamente sobre pessoas trans ou são mais abertos? Como funcionam?

Transarte é um coletivo de teatro que começou como projeto social e hoje realiza festivais culturais, já fizemos no RJ e em BH.

Atualmente todo o coletivo é trans desde os bastidores aos artistas. Nos apresentamos em diversos circuitos artísticos no RJ com o coletivo, recebendo como trabalho e com isso valorizando as pessoas trans no meio artístico. É o famoso nós por nós.

Não falamos apenas das nossas vivências em nossas peças, mas o coletivo é fechado para pessoas trans sim. Cis tem espaço por aí, nós não.

(Kaique foi perguntado sobre os problemas que afetam exclusivamente pessoas trans)

Meu problema é falta de cidadania. São direitos básicos como identidade, uso de banheiro, trabalho, poder andar na rua sem morrer, etc…

Estávamos avançando a passos de tartaruga, mas estávamos. Agora já não sei de mais nada. No sul já perdemos o direito ao nome social.

Muitos gays falam com as travestis exaltando de uma maneira cínica que chega a doer. No meu caso, como homem trans, percebo muita misoginia no meio LGBT também, um repúdio ao meu corpo. Da mesma forma que as mulheres cis e trans acham que perdem feminilidade por transarem comigo também.

Olham para o homem trans como se fosse homem sem pau. Mas não. Não somos sem pau, até por que isso se compra em qualquer sex shop. Pau não é o nosso objetivo. Somos homens de buceta. Buceta existe, não é nojento como muitos gays cismam em falar.

Desanima lutar pq é uma coisa diária. A solidão faz parte da nossa vida.

– Pra finalizar: quais artistas ou ativistas você indica e acha que merecem atenção maior?

Na musica: Mc xuxu, Dana Lisboa, euzinho, Liniker, Mel.

Teatro: Dandara vital, Gabriela loran, Renata Carvalho, ralph duccini, anagiza, eu haha

Tiago Oliveira

Autor: Tiago

Ator, escritor e compositor. Sou @Oliverti_ em todas as redes sociais. Protejam os animais!